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Comportamentos difíceis na escola: Um olhar sistêmico para além das aparências


Indisciplina, agressividade, desatenção, isolamento – comportamentos que desafiam educadores e preocupam pais diariamente nas escolas. A abordagem tradicional frequentemente busca "corrigir" esses comportamentos através de punições ou recompensas, focando apenas no que é visível. A Pedagogia Sistêmica, no entanto, nos convida a olhar mais profundamente, buscando compreender o que esses comportamentos podem estar comunicando sobre dinâmicas familiares e sistêmicas mais amplas.


O comportamento como mensageiro


Na perspectiva sistêmica, comportamentos difíceis raramente são apenas "problemas" a serem eliminados. Eles são mensageiros, sinais de que algo no sistema familiar ou escolar pode estar em desequilíbrio. Quando uma criança se comporta de maneira desafiadora, ela pode estar expressando lealdades invisíveis, carregando pesos que não lhe pertencem ou reagindo a dinâmicas sistêmicas não resolvidas.


Lealdades invisíveis: O que está por trás do comportamento?


Muitos comportamentos difíceis são expressões de lealdades familiares inconscientes. Por exemplo:


O aluno agressivo: Pode estar identificado com um membro familiar excluído ou "esquecido", expressando raiva que não é originalmente sua.


A criança que não aprende: Pode estar inconscientemente sendo leal a um familiar que não teve oportunidade de estudar, como se dissesse: "Não posso ir além de você."


O estudante isolado: Pode estar reproduzindo o padrão de alguém na família que se sentiu excluído ou não pertencente.


O aluno "salvador": Aquele que assume responsabilidades além de sua idade, frequentemente está tentando "salvar" ou cuidar dos pais, invertendo a hierarquia natural.


Como educadores podem adotar um olhar sistêmico


1. Observe sem julgar


O primeiro passo é desenvolver a capacidade de observar comportamentos sem julgamentos imediatos. Em vez de pensar "este aluno é problemático", questione: "O que este comportamento está tentando me mostrar?"


2. Busque compreender o contexto familiar


Conhecer a história familiar pode fornecer pistas valiosas. Informações sobre perdas recentes, separações, mudanças significativas ou histórias de gerações anteriores podem iluminar comportamentos aparentemente inexplicáveis.


Exemplo prático: Em uma reunião com os pais, além de relatar o comportamento da criança, pergunte sobre mudanças recentes na família ou eventos significativos. Faça isso com respeito e sem invadir a privacidade familiar.


3. Utilize frases e intervenções sistêmicas


Pequenas frases podem ter um impacto profundo quando tocam a raiz sistêmica de um comportamento:


Para o aluno agressivo: "Vejo sua força. Ela é importante, mas aqui pode ser canalizada de outras formas."


Para a criança que não aprende: "Respeito sua lealdade à sua família. Você pode honrá-los também através do seu sucesso."


Para o estudante isolado: "Há lugar para você aqui, exatamente como você é."


Para o aluno "salvador": "Você é criança/jovem e seu lugar é aprender. Os adultos cuidarão das responsabilidades deles."


4. Crie rituais de inclusão e pertencimento


Rituais simples podem fortalecer o sentimento de pertencimento, essencial para a abordagem sistêmica:


• Círculos de boas-vindas no início do dia.

• Celebrações que incluam a história e contribuição de cada aluno.

• Atividades que honrem as diversas origens familiares e culturais.


Como pais podem colaborar com a abordagem sistêmica


1. Compartilhe informações relevantes


Sem invadir a privacidade familiar, compartilhe com os educadores informações que possam ajudar a compreender comportamentos:


• Mudanças significativas na família

• Perdas recentes

• Histórias familiares importantes


2. Evite triangulações


Triangulações ocorrem quando pais e escola se colocam em lados opostos, com a criança no meio. Para evitá-las:


• Mantenha uma comunicação direta e respeitosa com os educadores.

• Evite criticar a escola na frente da criança.

• Busque soluções colaborativas em vez de culpabilização.


3. Respeite os papéis


Na abordagem sistêmica, cada um tem seu papel:


• Pais são os primeiros e principais educadores.

• Professores complementam a educação familiar.

• A criança não deve carregar responsabilidades adultas.


Estudo de Caso: Transformando o comportamento através do olhar sistêmico


Situação: Vitor, 9 anos, apresentava comportamento agressivo na escola, especialmente com meninas. As abordagens tradicionais de disciplina não surtiam efeito.


Olhar sistêmico: Em conversa com a família, descobriu-se que o avô paterno de Vitor havia perdido uma irmã na infância, tragédia que nunca foi adequadamente elaborada na família. Vitor, sem saber, estava expressando a raiva e o luto não processados pelo avô.


Intervenção: A professora, após orientação sistêmica, conversou privadamente com Vitor: "Percebo sua raiva, e ela é importante. Mas parece que parte dela vem de longe, talvez de histórias antigas da sua família. Você pode honrar essas histórias de outras formas, e eu estou aqui para te ajudar."


Resultado: Gradualmente, com este reconhecimento e outras intervenções sistêmicas, o comportamento de Vitor começou a mudar. A raiva não desapareceu magicamente, mas encontrou canais mais saudáveis de expressão.


Quando buscar ajuda especializada


Embora a abordagem sistêmica ofereça ferramentas valiosas, alguns casos requerem apoio adicional:


• Quando o comportamento coloca a criança ou outros em risco.

• Quando há suspeita de traumas significativos.

• Quando intervenções iniciais não mostram resultados após tempo adequado.


Nestes casos, o trabalho conjunto entre escola, família e profissionais especializados (psicólogos, terapeutas sistêmicos) é fundamental.


Conclusão


Olhar para além do comportamento aparente não significa ignorar limites ou consequências. Pelo contrário, significa estabelecê-los com maior consciência e eficácia, compreendendo as forças sistêmicas em jogo.


A Pedagogia Sistêmica nos ensina que, muitas vezes, o que chamamos de "problema de comportamento" é na verdade uma solução que a criança encontrou para lidar com dinâmicas complexas. Ao reconhecer isso, podemos ajudá-la a encontrar soluções mais saudáveis, honrando sua história familiar enquanto abrimos caminhos para novas possibilidades.


Quando pais e educadores unem forças nesta perspectiva, não apenas resolvem desafios comportamentais, mas contribuem para a cura e fortalecimento de todo o sistema que envolve a criança.

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